terça-feira, 27 de outubro de 2009


Quando te Chamo Inês, és Átrio

















Antes de passarmos ao Canto III – Poemas Relativos (na próxima postagem), falemos desses avatares femininos que servem de foco ao poeta em sua construção-de-sentido. Em sua poiesis e em sua autopoiesis.



No poema XVII do Canto II (Subsolo e Supersolo), temos um interessante poema de um avatar sem nome. Temos uma mulher inominada, em seu estado cru: Mira-Celi sem estrelas. Ou com todas elas. Essa limpidez da musa anônima só faz realçar o que Jorge de Lima possa achar em cada uma de suas faces nomeáveis, seja Lenora, seja Inês de Castro, como veremos a seguir. Seja Eurídice, como veremos no próximo Canto.



Vamos ao Poema:


XVII.


Hoje há uma mulher nesse sol-posto,
ora não, ora meiga, ora alvadia.
Ontem revendo-a, muda-se o meu rosto
assustado em cegueira, que não via.


Certa vez a revi em findo agosto:
não era o mesmo canto que eu ouvia;
o seu pranto expirava em outro gosto,
retinia o seu bronze outra alegria.


Tendo vindo do céu chuvas antigas,
essa ofélia dos ares semeou-se:
houve joio e houve trigo sobre o humo.


E a semente do joio nasceu triga,
e uma parte do trigo transformou-se
em sombra ou coisa menos do que fumo.





Esquiva é a mulher no lusco-fusco. Ela mesma é penumbra e rosto. Ora ela, ora não. Ora meiga, ora pálida. Alva de desilusão. Quem a vê transformar-se, transforma-se. Revendo-a, o poeta assusta-se de cegueira. Há um rosto mitológico que assombra, petrifica e congela aquele que o olha: Medusa. Górgona. Poderia ser Medéia em sua fúria. Mas essa é pálida quando muda. Ou emudecida. O poeta é cego (ou cega-se) por não vê-la em todas as faces. Mas como poderia?! Certa vez ele a reviu, e ouviu outra coisa. Outro canto. Riso e pranto se alternam, em expectativas cruzadas daquele que ouve, procura. Altera-lhe o paladar. Nada é o previsto no passar do tempo. Os meses são findos. Essa Musa a si se fertiliza: o tempo e as intempéries a refazem. Ofélia semeada de ares e chuvas antigas. Qual Ofélia de Hamlet, estimada ou enjeitada. As chuvas não têm idade. Na intemporal Ilha, Todos os Tempos se fertilizam. Ilha-de-Todos-os-Tempos. A Eternidade fertiliza todos os Arquétipos, realça todas as faces da Musa [Todas e Uma Só]. Há húmus sobre a terra. Mas inverte-se o joio e o trigo. Magnífica forma poética de Jorge trabalhar com antíteses.





Vamos dar nome agora à Musa. Seu nome será Inês de Castro, como em Camões. O poema à Inês de Castro é o penúltimo desse Segundo Canto, o Poema XIX. Todo um Canto será dedicado a ela, quase ao término de Invenção: não por acaso, o Penúltimo Canto: Permanência de Inês. Mas vamos visitá-la, permanecida, neste longo poema.




XIX.


Estavas linda Inês posta em repouso
mas aparentemente bela Inês;
pois de teus olhos lindos já não ouso
fitar o torvelinho que não vês,
o suceder dos rostos cobiçoso
passando sem descanso sob a tez;
que eram tudo memórias fugidias
máscaras sotopostas que não vias.


Tu, só tu, puro amor e glória crua,
não sabes o que à face traduzias.
Estavas, linda Inês, aos olhos nua,
transparente no leito em que jazias.
Que a mente costumeira não conclua,
nem conclua da sombra que fazias,
pois, Inês em repouso é movimento,
nada em Inês é inanimado e lento.


As fontes dulçurosas desta ilha
promanam da rainha viva-morta;
o punhal que a feriu é doce tília
de que fez a atra brisa santa porta,
e em cujos ramos suave se enrodilha,
e segredos de amor ao céu transporta.
Não há na vida amor que em vão termine,
nem vão esquecimento que o destine.


Não podendo em sossego Inês estar,
foi preciso mudá-la, nessa lida,
tão inconstante lida – mar e mar.
Descansa a doce Inês na sombra ardida.
Vem alta noite um rei peninsular
amá-la em sua última guarida;
Pois que matar de amor bem que se mata
para se amar depois a morta abstrata.


Semelhante amor qual esse Rei houve
à dona Inês não é achado. Em vão!
É preciso louvá-lo, e que se louve
o amor que além da morte é duração.
Ó dorida paixão, acalma-te e ouve:
foi buscá-la alta noite em seu caixão.
Roubou-a à negra paz minha viuvez.
Pajens, vive de novo a sempre Inês.


E para que não finde a eterna lida
e tudo para sempre se renove
nessa constante musa foragida;
entre Andrômedas e Órions alas move.
A sua trajetória é tão renhida,
Que a multidão celícola comove.
Vai ser constelação de um mundo novo,
esperança maior de eterno povo.


Ó paz, ó fim, ó mundo inominado
descansa doce névoa mensageira.
Teu rosto primogênito gelado,
que pólen misterioso te empoeira?
Calendário de lumes começado,
dormida potestade, luz primeira,
eras ontem rainha, hoje és ritual.
Que destino de gente supra-real!


Estavas, linda Inês, posta em sossego
para sempre no mundo sideral;
baila tudo em redor ao teu ofego,
tudo no atlas celeste era teu graal!
Tudo deixaste, ó amor, ó engano cego,
que viver neste mundo acidental
e morrer neste amor inda é certeza
de jamais perecer musa ou princesa.


Estavas, linda Inês, repercutida
nesse mar, nessa estátua, nesse poema,
e tão justa e tão plena e coincidida,
que eras a alma da vida curta; e extrema
quando se esvai na terra a curta vida.
Tu te refluis na vaga desse tema,
eterna vaga, vaga em movimento,
agitada e tranqüila como o vento.


Inês da terá. Inês dos céus. Inês.
Pronunciada dos anjos. Lume e rota.
Apenas obtenção, logo viuvez.
Depois noviciaria. Antes remota.
Agora sombra. Iluminada tez.
Ontem forma palpável. Hoje ignota.
Mas sempre linda Inês, paz, desapego,
porta da vida para os sem-sossego.





Estavas linda Inês posta em sossego. Como no Canto III dos Lusíadas. Vamos explorar a riqueza de nuances, matizes e antíteses que a visão dessa Inês propicia a esse poeta. O Poeta a vê morta. Rainha depois de morta . Trata-se do malfadado romance do infante Pedro, futuro rei de Portugal com a ama/ aia de sua esposa, Constança; Inês é assassinada em 1355, a mando do rei de Portugal, Dom Afonso IV, que queria para seu filho casamento mais conveniente. Diz a lenda que o príncipe vestiu a noiva em trajes nupciais, colocou-a no trono, e fez a corte beijar-lhe a mão. Dado o contexto histórico-lendário, vamos à imagem: o poeta não ousa olhar o torvelinho nos olhos cegos de Inês. O suceder cobiçoso dos rostos que lhe atravessa a tez, como que querendo lê-la/ decifrá-la sob a pele. Atrás da pele. O poeta tem pudor e comedimento, como se deve ter prudência ao olhar para a face da morte. E para a cobiça. A cifra mítica citada acima, do olhar que petrifica (=Medusa/ Górgona) é correlato do tema. Mas a morta, aqui, é espelho da sondagem e da cobiça viva. Há um coro de máscaras que desfila sobre Inês (pretensamente, sob a sua tez) e que ela não vê. O poeta não quer se debruçar sobre o que ela mesma não vê. Vê nela o puro amor. Vê que ela não vê o que sua face agora traduz, coberta de cobiça: o cortejo cobiçoso dos rostos. Inês nua aos olhos. Transparente. E como bom trovador, o poeta a vê em movimento inanimado. Nada em Inês é morto.



As fontes da própria Ilha do poeta, a Ilha de Invenção de Orfeu, nascem desse tipo de amor inocente. Nascem da rainha viva-morta. Nunca morreu de todo. “O punhal que a feriu é doce tília/ de que fez a atra brisa santa porta”: a morte de Inês é porta sagrada para outro Tempo e Outro Mundo, é Átrio Místico. É com esses olhos que o poeta-fundador, o demiurgo da Ilha, olha para a sempre-viva Inês. Como Orfeu quer olhar para Eurídice, tendo de atravessar Umbrais. Não podendo ter paz em vida, Inês teve de ser transladada: esse translado é a própria travessia do Átrio. Quem quiser acompanhá-la deve fazer como a amou o rei: amor que vence o Tempo. “Semelhante amor qual esse Rei houve/ à dona Inês não é achado. Em vão!/ É preciso louvá-lo, e que se louve/ o amor que além da morte é duração./ Ó dorida paixão, acalma-te e ouve:/ foi buscá-la alta noite em seu caixão.” E essa Inês que foi ama/aia em vida, agora depois de morta tem pajens para si: “Roubou-a à negra paz minha viuvez./ Pajens, vive de novo a sempre Inês.” Esse é o amor que lhe dedica o rei. Esse é o amor que lhe dedica o poeta. A viuvez também é paz, ainda que negra. Pois quando em vida Inês nunca foi posta em sossego. No final do poema é reiterado ser ela mesma “porta para os sem-sossego”. A morte de Inês, como disse acima, é Átrio. O poeta faz algumas explanações e firulas barrocas, coloca-a como Inês sidérea (Mira o Céu, Mira-Celi!), transformada em constelação, como Cassiopéia, Andrômeda, Órion. Os dois últimos personagens são citados no poema. Ela "move alas" entre as constelações. Sua trajetória "tão renhida” e árdua comove a população celeste. Se aqui atrai cobiça, exceção feita aos olhos que enxergam (rei-poeta), lá atrai comoção. Simpatia. Ternura. Inês é calendário de lumes (Mira o céu: Mira-Celi!). Nenhuma poeira pode empalidecer seu rosto. Seu eterno movimento, flor e fruto do seu desapego, agora é rota. Agora é Norte. Porta para os sem-sossego.











Marcelo Novaes

domingo, 4 de outubro de 2009


Não Te Chamo Eva, Mas Lenora...


















Prossigamos com Jorge de Lima, apenas destacando o tema de sua musa-amálgama-inominável. Num livro anterior, “A Túnica Inconsútil” (esses livros anteriores estão sempre confluindo para Invenção de Orfeu, Encontro e Anunciação de Miraceli, Tempo e Eternidade, A Túnica, Sonetos, com tudo de Religioso que há neles...) ele diz que “não dará nome à musa”. Vejamos:



O NOME DA MUSA



Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de
sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas
sei que não é o vento que bole, mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares
boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros revoando
sobre as terras geladas.
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areias movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações.
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais da criação se reconciliem sob o mesmo arco-iris:
então ouvireis o nome da que não chamo Eva,
nem lhe dou nenhum nome de mulher nascida.



Não a chamará Eva, “a primeira das primeiras”, nem “lhe dará nome de mulher nascida”... Mas esse não-nomear é pródigo em nomeações. “Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés/ e influir nas coisas oscilantes”. Todas as deusas lunares, plenas ou minguantes: Aradia, Selene, Hécate. Com todos os seus desdobramentos e corolários (estações, Horas, Graças / Cárites, Hespérides, Calipso, Eós /Aurora). Não. O poeta se recusa a chamá-la Eva, mas “Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas/sei que não é o vento que bole, mas tu que passas com os cabelos soltos”. Bom..., então ela se chama Flora, também. Ou Thallo. Sem nomeá-la, ele insinua muitas de suas facetas.



Mas o poeta não resiste ao pólo gravitacional da Deusa, ou Mulher Originária (Musa, enfim). E, em Invenção de Orfeu, ele ainda a chamará de muitos nomes. Miraceli é só seu nome-amálgama. Mas há avatares por toda parte. Como estamos no Canto II, “Subsolo e Supersolo”, ele ainda a chamará Lenora e Inês de Castro. No poema XII, temos a (não-)nomeação de Lenora.



Acompanhemos o poema:



XII.




Tinha Lenora tranças reluzentes
comuns às suas faces e as da Musa
que sobre os belos ombros se inclinava
confundindo os sorrisos geminados
e seu colo cingido arfando em brumas
que cobriam de paz os bosques rudes
mas que choravam fundos sobressaltos,
se alguém dos seus cantava reis ou guerras.
Contemplareis nas neves transparentes
os seus dedos formosos preexistidos
em que prudentes rosas floresciam.
(A Musa me segreda o duplo enleio.)
Lenora tinha os olhos repousados
(a fusão irreal reveladora)
e lábios que falavam sem palavras.
Era um corpo gentil, aceno airoso,
(agora comporei o signo igual)
sentença natural, lírio e doçura,
(a cantiga enlaçada como vida)
Lenora tinha um modo transmitido
(esse canto enlinhado me completa).
Lenora sempre terna, ó país puro!
(Essas aves hesitam, vão e vêm).
Quase irreal Lenora entre as Lenoras.
(A boca esmaecida quer sorrir).
E os teus pés, bem-amada, e as tuas mãos?
Pronuncio esses dons. Pronunciando-os,
transporto-te à existência sublunar.
(Se existe alguém levado de amor grande
que sonde a eternidade desse tempo.)
Não és vivência vã mas te saúdo
em versos tão reais quanto essa tarde
umedecida de outras confidências.
(A própria brisa é dúvida no espaço.)
Recorda-te Lenora, dos dezembros
e das noites em claro relembrando,
relembrando passados que nós éramos?
(Essa presença é fuga. Antes voltemos.)
A tua voz deixaste em mim vibrando,
atravessando as horas passageiras;
seta parece ser tua lembrança.
(Que coisas breves nesse firmamento!)
Lenora, és um caminho, guia e liana;
Lenora, tu o encurtas, vou a ti.
(O canto luz parece e entanto é aroma.)
Lenora não consigo desenganos,
nem alegrias; vivo apenas, vivo,
que tu és tudo e tu és tu, Lenora
(A rosa pendia ou se mirava ou
se arrependia. Rosa erma que se ia.)
Tinha, Lenora, risos tão carinhos,
risos virgens de pátria clandestina;
lábios que não seriam de seu ser
(Musa e Lenora riem e não choram.)
Ó Lenora-Verona a ti me elevo
em ti me encontro em encurtada escada.
(Não acordemos nem durmamos musa).
Lenora em mim, silêncio me envolvendo.
Deixemô-la no espaço - clavicórdio
entre carícia extrema e essa ansiedade.
(Aquele gesto doce não se esvai.)
Aparência gentil, meneio airoso
--isso que longe e perto és tu, Lenora;
e és a mesma presente formosura.
(Se existe alguém levado de amor grande
que sonde a eternidade desse tempo.)
Lenora era uma pátria ante-existida.
Em suas praias aves gorjeavam,
estavam confundidas rosa e carne.
Não peçamos colheitas nem vindimas
que prazer vegetal é árvore-ágio;
mas vinde virgilianos sem mecenas
repousar sob as tardes e as avenas,
contemplar esse inseto ou esse abraço,
esse beijo, esse vôo, essa corola
e esse olhar diluido pelos ares
vergando as flortes que nasceram hoje
(elo, elo e ela serpente interminável
nessa imaginação meditativa.)
Conjura teologal, Lenora pura,
provéns da dualidade de meus dias,
recôndito ardimento, suave teia.
Ó legenda constante e persuasiva,
visão em tudo, face renovada,
estrela gêmea, luz de estigma largo.
(O prazer desses bosques é escutado
ou bebido com os olhos ansiosos.)
Lenora rediviva, as águias brandas
adornam tua fronte de expressões.
(O solilóquio alado já se expira.)
Aves de bronze cobrem teus cabelos,
duas esferas giram em torno a eles;
(esse ar adusto, aquele olhar perene,
nem distância os afasta nesse círculo.)
Lenora em pentagrama transformada
possuia imensas tranças reluzentes.
(Eis lenhos rubros pelas seivas de ouro,
Ó virgilianos vinde, vinde aos bosques!)
Lenora, és casa aberta, alma em vigília,
efusão repetida e suplicante.
(E tudo em torno é apenas espelhismo
ou os olhos fixos de Lenora em tudo);
em redor desse poema, dupla voz,
duplo ouvido, perenes, simultâneos.




Lenora é avatar da Musa (Miraceli), e com ela conflui-se: Tinha Lenora tranças reluzentes/ comuns às suas faces e as da Musa [Miraceli]/que sobre os belos ombros se inclinava/ confundindo os sorrisos geminados”. Lenora agora está alçada à condição de um dos avatares de Miraceli. Essa é uma Musa das neves, acostumada às batalhas de reis e cavaleiros. Aos combatentes das cavalarias: “Contemplareis nas neves transparentes/ os seus dedos formosos preexistidos/ em que prudentes rosas floresciam”. E ainda: [...]e seu colo cingido arfando em brumas/ que cobriam de paz os bosques rudes/ mas que choravam fundos sobressaltos,/se alguém dos seus cantava reis ou guerras”. A despeito de já terem dito ser essa Lenora personagem do poema de Edgar Allan Poe (sic), “O Corvo”, essa é a Lenora da Balada de Lenora [Lenore] de Gottfried August Bürger (1747-1794). Mas depois, além-e-aquém da Lenora raptada pelo cavaleiro morto que pensa estar vivo, é Lenora múltipla e híbrida. É Lenora –Verona [deliberado uso de aliteração e paronomásia, vizinhança-dos-nomes]. “Lenora era uma pátria ante-existida”. Tudo na formulação da Invenção Órfica de Jorge ruma para as Anterioridades, para a Pátria pré-existida. Tal qual Miraceli. E mais: “Lenora tinha os olhos repousados/ (a fusão irreal reveladora)/ e lábios que falavam sem palavras”. Então, a Musa que o poeta reluta em nomear (mas que nomeia à exaustão, por ser inominável), está ela, também, aquém-e-além palavras: seus lábios falam sem falar. “Lenora tinha um modo transmitido...”, ó frase Roseana (ao modo de Guimarães Rosa). “Lenora sempre terna, ó país puro!” Lenora sempre terna e sempiterna [ó país puro]. Edênica Lenora. Lenora é caminho, ao modo de Estrela-Guia [Mira-Celi, mira o céu]: “Lenora, és um caminho, guia e liana;/ Lenora, tu o encurtas, vou a ti.” Mas Lenora também é Destino: “Lenora não consigo desenganos,/ nem alegrias; vivo apenas, vivo,/ que tu és tudo e tu és tu, Lenora”. Lenora não é só Musa: é Pan-Musa, Todas as Musas, e Musa Panteísta, Reflete a Face de Deus [E de Todas as Outras...; “olhe, Mira o Céu”...]. Como ícone panteísta, Lenora, naturalmente, também habita o âmago e o íntimo do poeta: “Ó Lenora-Verona a ti me elevo/ em ti me encontro em encurtada escada”. Encurtada escada; estrela-guia (Mira-Celi) que é também atalho. O poeta nela se encontra, e ela se encontra nele; habita-o: “(Não acordemos nem durmamos musa)./ Lenora em mim, silêncio me envolvendo.” Lenora não tem hiatos nem pausas: habita o sono, os sonhos e a vigília do poeta. Não acordam nem dormem. Lenora está nela. E sua presença deixa-o, “aureolado de silêncio”. O mundo silencia em torno.




Lenora, claro, também é índice de Deus, seu sinal. Lenora é “teologal”: “(elo, elo e ela serpente interminável/ nessa imaginação meditativa.)/ Conjura teologal, Lenora pura,/ provéns da dualidade de meus dias,/ recôndito ardimento, suave teia”. Lenora é elo e teia. Uroboros. Conciliação dos contrários ou Inconciliáveis aparentes. Teologal, portanto. Pura, mas provinda da dualiade do cotidiano do poeta. Provinda dele e sobre ele pairando. E disso tudo, faz ela urdidura/ urdimento-em-ardimento: suave teia.




Teologal, em tudo pulsa: “Ó legenda constante e persuasiva,/ visão em tudo, face renovada,/ estrela gêmea, luz de estigma largo.” Em tudo se deixa ver. E sua face em tudo se renova. Pan-Musa. Sendo Teologal e em tudo se mostrando, revela-se na face clássica da Deusa-também(-aparentemente)-Pagã”. Antes Círculo-Todo-Abrangente, consente em transformar-se em Pentagrama (signo clássico da Religião da Grande Deusa –falo do Pentagrama de Pé, não conspurcado; não falo do signo da Grande Besta, o Pentagrama Invertido). Círculo-Todo-Abrangente: “Aves de bronze cobrem teus cabelos,/ duas esferas giram em torno a eles;/ (esse ar adusto, aquele olhar perene,/ nem distância os afasta nesse círculo.)” Tudo se move no círculo íntimo oniabrangente evocado/ nascido da própria presença de Lenora: “Aves de bronze cobrem teus cabelos,/ duas esferas giram em torno a eles/...” O halo de Lenora (e seus cabelos, ícone mais óbvio do Halo) cria(m) essa Abrangência e essa Circularidade. Nessa Abrangência Circular, também as aves encontram abrigo. Lenora alçada à Condição de Matriz Universal ( A Face Deusa do Deus), também se expressa em sua clássica manifestação icônica da Grande Deusa: “Lenora em pentagrama transformada/ possuía imensas tranças reluzentes.” Círculo Todo Abrangente e também pentagrama.




Em Lenora tudo cabe, e Lenora tudo acolhe: Pan Musa. Musa-de-Todos-os-Nomes: “Lenora, és casa aberta, alma em vigília,/ efusão repetida e suplicante.” Lenora reverbera, em súplica (-sempre-em-vigília, efusivamente) dentro de cada um. E, talvez, dê até resposta... Senão, ao menos, espelha. “(E tudo em torno é apenas espelhismo/ ou os olhos fixos de Lenora em tudo);/ em redor desse poema, dupla voz,/ duplo ouvido, perenes, simultâneos.” Lenora duplica cada coisa. E duplica, inclusive, o próprio poema criando halo, ambiência atmosfera em torno de seu Bardo Órfico: voz e ouvido. “Dupla voz e duplo ouvido, simultâneos.”



Se Lenora era a personagem do Romantismo Alemão que fora raptada pelo noivo morto em batalha, sem sabê-lo morto, ela se mostra a contraparte perfeita (e simétrica) de Eurídice. Daí eu situá-la, indiscutivelmente, na matriz germânica (as neves do poema não me deixam assim pensá-lo sem fundamento). E mais: sendo a contraparte de Eurídice, raptada pelo morto (e não morta, raptada pelo vivo), sem sabê-lo, ela revela (brilhantemente) sua contraface que a coloca na condição de “sempiterna”, que é a condição que busca Jorge de Lima em todos os avatares de Mira-Celi. Em todos os avatares da Musa. E o foco Lenora (foco-pretexto) é o negativo de Eurídice, como nos apresentado na balada de Göttfried August Bürger.











Marcelo Novaes

terça-feira, 1 de setembro de 2009


Kyrie eleison













Estamos no canto II de Invenção de Orfeu, ainda: “Subsolo e Supersolo”. Na medida em que avançarmos, sobretudo no que disser respeito a poemas imensos de cantos futuros, nos utilizaremos mais de excertos. Todo o Canto III, “Poemas Relativos”, será colocado na íntegra. Mas isso será exceção, doravante. Cada vez mais. E a questão da prolixidade (ou “derramamento barroco”) de Jorge de Lima será uma das questões a serem analisadas.



Do Canto II, vamos ao poema X:



X.



Nasci de mortos, ontem ou hoje,
viva camisa sobre esse corpo
subserviente.


Besta de plumas, concordaremos,
todos hão sido muito plausíveis
dementemente.


Agora e sempre, continuaremos,
pêlos de febre, mortes perfeitas,
medos et coetera.

No mais e em tudo são choros íntimos
e mais os dentes, vulgaridades,
sem que eu consinta.


Mesa esferóide, nós conversamos;
e há mãos bem nossas, de manequins,
nos tateamos.


Tudo é memória, meu ser não houve
nem amanhece; contudo nunca
ninguém nos ouve


nem faço gosto, porém recalco,
sou soterrado punhal civil.
Ah! Biografia!


Caminho e corpo de olhos vidrados
dentro das horas recuperadas
em tempo a dentro;


a vida minha, tutela estranha,
carne surpresa, pão salivado,
trigo secreto,


perto horizonte, canto sem cor,
olhos exatos, presença dada,
permanecida.


Os meus comparsas: há um com musgos,
há um com mirras, há um que é só
e outro longínquo.


Horas, orai. Orar? Horei-me;
rotina ausente, semblante calmo
baixado ao livro.


Tudo se dá, tudo se muda,
ser um milhão no sempre vácuo,
talvez, talvez.


Carinho alheio, mole tangente,
torre narrada, flor contínua,
alienamente.


Monte vazio, través e em torno;
será meu ser? Já não me lembro
onde o encontrei.


E como iria torná-lo vidro,
Atrás do sono, contigo e o láudano?
Ai fardo em mim.


De fato um gosto, sou como os outros;
vou mas voltei, xara chorada
ricocheteia.


Porta de laca com inseto atrás,
com móvel passo, com igual remorso
recrudescido.


Dentro da barba dorme esse neto,
arco e momento, vida uma e sempre;
com essas palavras


ou só com o sangue mudo e inaudito,
fóssil veloz, roda e relógio,
mas outras coisas.


Desde o começo, nó sobre nó,
memória e sino, maré reclusa,
Kyrie eleison.


Boca na treva comendo o medo,
mãos já sem tempo perdendo o gesto.
Kyrie eleison.


Ah!biografia, ah! Nuvens e álbum!
galo negado, vôo tripartido,
esquina aguda,


jogo pascal, um, dois, três, quatro
ases de pau, de ouro e de espadas
espoliados;


mas nós em tudo tão abolidos,
tão dissipados. Aproveitai-me,
Rei dos três reis!


Ora bons tempos só pra chorar,
caí em mim, curiosidade,
coitado em vários.


Por que somado? Por que sou tantos
rastos sem corpo? Todos de novo
curioseando.


Sempre afundando, fôlego morno,
goela de lama, aranha mole,
sombra de túnel,


mãos canceladas, parada busca,
certo silêncio sobre as cabeças.
Mas esquecemos.


No caos me deito, na luz me esvoaço,
no mar me lanço, engulo em seco,
era preciso.


De mim me vou reunanimado,
choram no cais bocas fechadas,
bigodes lentos.


Conversa vai, conversa vem,
depois a flor comendo insetos
parodialmente.


Tempo de após, dança do início,
sou tão perplexo entre as muralhas.
Menoridade.


Havia um ser não consumido
roçando a voz fora da cor,
possível tudo.


Na sua esteira há um sem fé,
tiro no ouvido, dentro da lua,
parentemente;


tentei suprir vagando em brisas,
contando os passos. O jeito é rir
com a boca ausente.


Jamais me vi, porém nos vemos,
mal grado em mim no espelho usual,
peixe em dilúvio.


Não sei dessa ilha; se a incestuei
in illo tempore.


Conclusão fria: um cego canta.
Eu todavia.


Assim não é, se assim não fosse.
Sei-me.





Temos aqui um poema qual liturgia bizantina, qual rito bizantino: kyrie eleison, “Senhor tende piedade”. Senhor tende piedade de nós. Poema liturgia. Ritmo cadenciado qual repetida prece. Kyrie eleison.


Poeta nascido de mortos, como morta é a condição do homem esperando ser redimida e rediviva. Mas camisa viva sobre o corpo subserviente. Um corpo que deve ser servil. Tem-se de saber servil a que... A plausibilidade humana é demente. As falas e plausibilidades são plumas, emplumadas. E o homem é besta, com sua fala e “dementes razões”. O convertido não tem idéia muito nobre do humano usual, não redimido, nem arrependido. Kyrie eleison. Pequenas e febris trivialidades compõem o homem, agora e sempre [“pêlos de febre, mortes perfeitas, medos et coetera”]. No mais, sempre trivialidades, são choros íntimos e dentes que mordem e articulam palavras [sempre vulgaridades] sem que o poeta as consinta. Como São Paulo, ele faz o que não quer, e deixa de fazer o que preferiria. Kyrie eleison. As mãos humanas compõem um tatear de manequins, pueril, vago, sem substância, sobre quaisquer mesas. Esse atear sem substância á pura memória, aureolado de memória, isso também pura insignificância. Kyrie eleison. O ser do poeta nem toma posse de si, nem há de fato, não existe em sua mais essencial substância, mas mesmo nessa faixa de manequins tateadores, não há ouvidos para o ser. Nunca há. A superficialidade humana é previsível, recorrente. E impede tanto o ser (haver) quanto o ouvir. Kyrie eleison. Se não se ouve em substância ou essência, o poeta nem faz gosto que se lhe ouça em “oitava menor”. Recalca essa necessidade humana, qual “punhal civil soterrado”. Kyrie eleison. Mais uma vez, o poeta tenta saltar dessa fútil biografia histórico-geográfica (subsolo), para uma Biografia Épica (essa é sua anotação lateral ao poema, nos originais). Quer alcançar o Supersolo. Mas será possível?! Senhor tende piedade.



O caminho e o corpo se enquistam. O poeta caminha e encorpa-se de olhos vidrados, qual zumbi ou sonâmbulo, dentro das horas, “tempo a dentro”. Saberá caminhar? Saberá despertar? Redimir-se?! Kyrie eleison. Sua própria vida precisa de si se apropriar: é tutela estranha. A surpresa da carne (como a palavra que salta sem que se lhe consinta...), o trigo secreto (e o trigo é o que precisa ser colhido, o que busca o Olho de Deus: que sejamos trigo). Kyrie eleison. O horizonte é perto, mas não há cor no canto. Há de se aprofundar a salmodia. Kyrie eleison. Há os tipos humanos, os comparsas do poeta, os companheiros de percurso e horizontes: há um com musgos (com fungos, deteriorado, envelhecido); com o desleixo em si entranhado. Há um com mirras (capaz de fazer ascender algum suspiro ao alto), há um que é só. Outro, longínquo.O só e o longínquo são, ambos, solitários. Pelo menos á visão/alcance do poeta. E, como veremos, inevitável ser só, mesmo e oração. Kyrie eleison. O poeta orou em suas horas, como pode ter orado o próprio Livro das Horas das devoções medievais, beneditinas, barrocas. Kyrie eleison. Baixou seu semblante calmo ao livro. Acalmou-se por baixá-lo. Orou, enfim. Senhor, tende piedade.



O poeta é múltiplo e fardo para si mesmo. Isso tem sido desde sempre, desde o início de sua Invenção-Revelação-Autoconfissão. Talvez, talvez. Ser um milhão. Tudo se muda. O (próprio) caminho pode ser alheio (a si), á própria revelia. Há de se recompor-se para integrar-se e achar-se. Trigo?! Talvez, talvez. A própria flor é descontínua: míngua. Há vazio no próprio monte (insight budista na própria vivência cristã; é natural que assim seja: os insights religiosos se conjugam). Através e em torno onde está o ser-essência do poeta (camisa do espírito que veste o corpo servil, herança dos mortos)?! Os koans Zen fazem a mesma pergunta. O perguntar e o ser são fardo para quem levanta a pergunta. Para ajudar o sono: láudano. Kyrie eleison. Na busca por ser, a seta que chora, ricocheteia. Será ser não-sendo, ricocheteando como os outros?! Kyrie eleison. Pode ser veloz, mas é fóssil. Herdeiro de mortos. Nascido deles. Kyrie eleison.



Nó sobre nó, desde o começo. Difícil desatar-se. Boca na treva comendo o medo, mãos já sem tempo perdendo o gesto (e aqui retomamos o tato dos manequins sobre as mesas esferóides). Deus há de ter piedade.



Toda biografia é álbum (essa coleção de memórias), mas também nuvem. Volátil. Cheio de vôos, negações, quinas/ esquinas, um verdadeiro jogo entre os reinos naturais. Um jogo pascal, de ressurreição ou remissão/ redenção. Que Deus aproveite a mão-de-jogo (as cartas vitais, biográficas) do poeta: O Rei dos três outros reis (magos), e também dos reis das cartas do baralho (dos quatro, e dos ases, também...). O Senhor possa aproveitá-lo para algo de bom. O Senhor tenha piedade! Do álbum e nuvem o ser em si se queda: vários. Curioseando (curiosa maneira regional de falar, como que Roseana) o ser se vê coitado. Em vários. Mas que seja contrição, e não auto-comiseração. Kyrie eleison. Por queé o poeta tantos rastos sem rosto?! A luta contra a multiplicidade (estreitamente unida à resposta amorfa do “ser morto no mundo”) faz parte da tarefa de ter o Nome Escrito no Livro da Vida (ou das Horas), como trigo. Kyrie eleison. Por enquanto (enquanto em luta, e até quando?): fôlego morno e goela em lama/ de lama. Mãos canceladas. Parada-e-busca. Busca-parada. Parada brusca. Kyrie eleison.


No caos me deito, na luz me esvoaço,
no mar me lanço, engulo em seco,
era preciso.



Esse choque entre elementos, essa crucificação em meio aos reinos naturais (caos, luz, água-mar e sequidão) é parte a tarefa de buscar-se e á redenção. Assim vai o poeta se reunindo em si, em anima, em alma, e se reanimando. Trazendo unidade e alma à carcaça autômata-manequim herdada dos mortos (oh gerações do mundo!). O poeta vai se reunindo (a si) e se reanimando (“reunanimado”). Eis o neologismo da dupla face da busca. Nem sabe se incestuou a Ilha, se ele mesmo é o espectro a engendrá-la / habitá-la. Nos séculos dos séculos. Rindo com a boca ausente. Peixe em dilúvio (em ilha). In illo tempore. No tempo inescapável. Também se espera que o tempo certo. Kairós. O tempo de Deus. Kyrie eleison. Assim não é se assim não fosse. Tudo está encadeado. O poeta tem um grão de fé, ao menos. Sabe-se. Trigo?!
Talvez, talvez.




Kyrie eleison.









Marcelo Novaes

quinta-feira, 27 de agosto de 2009


Lava Secreta, Céu Acima













Prossigamos com o Canto II, “Subsolo e Supersolo”, com toda a tensão poeticamente explanada entre esses dois planos. Vou destacar alguns poemas completos e excertos. O rude e a seta para o sublime estarão presentes. Ambos.



Poemas V, VI e VII do Canto II.



V.

Nesse sepulcro de secreta lava
jaz formosa mulher, governou sua
casa, fiou lã, seu filho era marinho,
e seu homem uns sonhos fabricava.


Os três bailavam sempre narcisados;
Sabiam fazer cantos e navios.
Os nomes deles eram de afogados.
Ó família de pélagos sombrios!


Casou-se o filho, teve um par querido
e deste par vingou um marinheiro.
Fundador de oceanos foi seu filho.


Ele é que dorme nesse mar combusto.
Saem de seus flancos asas de veleiro,
canta-se em búzio pelo mar sem bússola.



VI.


Iam bem juntos, iam resolutos,
olhares cúmplices mas não impuros;
andavam devagar, indissolutos
num vago andar feroz e quase inútil.


Ele rodou-a. Tarde de uns outubros.
Era por uns desvãos. Amado estupro.
Pegou-a em cheio. Júbilos e frutos.
Carinhos se chocaram. Testas, púbis.


Só me podes gozar feito ser bruto?
Teu ser me dói em mim. Por que produzes
as tatuagens? Queridas urzes. E ele:
pariste os filhos que há em ti íncubos?


Ela mostrou-os. Partiram mudos na
escuridão. Surgiram bugres. Ela
ofertou-lhes seu ubre. Estava pura,


outra vez núbil. Filho, filha, mútua
pendência em tudo, a mesma arena e cama.
Olhou as mãos, as mãos da doce luta
agarradas as duas a outra nuca.



VII.


Tudo é lícito aqui nessa Sumatra.
Lícito desmontar-te, Lys, teus seios
e neles pôr teus olhos renegados,
desacertando a glória que Deus fez;


e depois desconstruir-te, Lys inata,
carne subterfugida e doces veias,
restituindo-te à noite desgarrada
nos baixios submersos do teu leito.


E adorar-te anjo meu reproduzido,
biografado dos anjos parricidas,
sem sentido de lógicas estrofes,


pois meu grito danado é o mesmo grito
encerrado no ventre dos ouvidos
repercutido pelos céus que sofres.




O poema V traz a anotação lateral de Jorge: “a boa família”. Boa família engendrada em “sepulcro de secreta lava”. A dama cumpre com suas boas obrigações: governa a casa e fia lã. Seu homem fabricava sonhos, seu filho “era marinho” [não nos esqueçamos que a paisagem de fundo ainda é “A Ilha”]. Pode ser marinheiro, como pode estar em contigüidade com o mar, como o marido está contíguo aos sonhos. Na verdade, o sonho é dos três, pois dançam narcisados. Fazem cantos. Fazem embarcações. Mas estão submersos em sombras. Se há secreta lava, estão nela afogados. As profundidades são sombrias, são abismos. [“Ó pélagos sombrios”]. O filho casa-se, e do par só vinga o marinheiro. Ou seja: morre um filho ou filha. “Fundador de oceanos foi seu filho”, eis a genealogia das tragédias e fundações da “boa família”. Não nos esqueçamos que o plano de fundo é “A Ilha”. Funda oceano ou afunda-se. Talvez outro finado. “Eles é que dorme nesse mar combusto”. O mar também é pélago, é abismo e lava. O mar pega fogo. “Saem de seus flancos asas de veleiro, canta-se em búzio pelo mar sem bússola”. Eis a seta apontando ao supersolo. Ainda que cante em búzio [dorme, então, narcisado e provavelmente “em combustão” /comburido] pelo mar sem bússola. Não parece tão heróico o destino da[s] boa[s] família[s]. Tudo dói no subsolo, e chameja. Ainda que em silenciosa [conquanto dolorida] combustão.




Mas a família talvez à primeira vista tão boa [ou sobrenadando a lava que lhe ferve nas entranhas], revela alguma outra face: a do “amor brutal”. Essa é a marcação do próprio Jorge ao seu poema VI. Os olhares eram resolutos, mas não impuros. Andavam devagar num vago andar feroz e quase inútil. Até que “nuns outubros”, ele a roda e a estupra. Os carinhos “se chocam”. Ela pergunta se ele só pode gozar feito ser bruto. Afirma que seu ser lhe dói, e que ele a marca com cicatriz. Ele pergunta se ela já pariu os íncubos, os filhos da insaciedade voraz. Dele e dela. Assim ele pensa. Ela carrega íncubos em seu ventre também! Há lava quente sob tudo. Ela os mostra [as faces deformadas dos monstros internos]. Mas o que nasce são índios. Bugres. Como em nossa colonização feita por “boas famílias”. Como plantas queridas. Queridas urzes. Ele oferta o seio aos filhos índios. Está pura de novo [a selvagem é pura!]. Outra vez núbil, “noivável”. Há pendência nessa origem brutal, mas as mãos também aninham filhos e ofertam seio. Embalam. Isso sob o pano de fundo da arena e cama. Do amor brutal de íncubos e súcubos. Isso sob a égide do estupro. Há lava, mesmo, sob tudo.




Tudo é lícito nessa Ilha [nessa Sumatra, começa o poema VII]. É lícito ao poeta desconstruir, desmontar e reconstruir sua musa. Seu nome, a princípio, é Lys, tal como flor ou como alguma personagem. Mas não importa. Seu contorno etéreo é Mira-Celi. Ela é altiva. Sua presença aponta para o céu. Também é seta ao supersolo, como, neste Canto, tudo oscila: lá, e aqui; céu e ilha. Deus fez a musa em sua glória. Os olhos humanos a desacertam. Mas o poeta desconstrói musa desacertada e desacerto. Tenta alcançar a Lys inata, pré-desacerto, a Lys gerada na glória de Deus. A anotação do próprio Jorge a este poema é a seguinte: “A amante que já vem de Mira-Celi”. Trata-se do antigo livro do autor: “Anunciação e Encontro de Mira-Celi”. Lys, então, remete à Mira-Celi. Terá de ser resgatada essa Lys, ela que por ora se encontra submersa [água-lava] nos baixios de seu leito. Mas será alçada e reproduzida no alto [supersolo], como anjo reproduzido [e anjo do poeta], repercutida em seu próprio grito, que os céus reverberam. [Supersolo]. Eis o modo de Jorge conjugar esses dois planos.





Em Encontro e Anunciação de Mira-Celi temos grandes pistas para tal musa [e outras que virão]. Peguemos dois poemas desse livro anterior [cujo “leitmotif” irá acompanhar o poeta em todos os seus ulteriores escritos, como a musa consumada de todas as faces, verdadeira Sophia, tal como entendida pelos gnósticos; ouso dizer: mais que Beatriz, de Dante, verdadeira Sophia a ser resgatada das crostas da Criação]. Vamos aos poemas elucidativos:




24

AS PESSOAS DE MIRA-CELI


ROSELIS é uma que se livrou do exílio entre os mercenários
e tem os cílios embebidos do mais puro ungüento.
No seu olhar há indícios de grandes poemas
e em seus catorze anos ela é uma promessa de carne e de luz.
Em sua permanência entre sórdidos escravocratas
conseguiu deixar intacto este orvalho divino
que lhe cobriu os seios quando menina;
e há no seu andar certo orgulho inocente,
como o orgulho da noite iluminada de estrelas.
Roselis liberta ofereceu-se para constituir em marco,
de uma laguna estelar,
porque ela é meio ondina até o ventre ou um pouco acima.
dois gêmeos ou dois cisnes ou dois diapasões de bronze
que acordarão o mundo para encher-se de poetas.
Roselis, a salva dos escravocratas, conseguiu ficar selada
entre os açoites e as lanças, entre os unicórnios e as lufadas.
O corpo de Roselis pode vingar-se como a bola de neve
que rolará sobre os lobos famintos
Mas prefere dissolver-se em neblina e umedecer as pálpebras dos poetas tristes.




Eis a Roselis/ Lys salva dos escravocratas. Aquela que conseguiu ficar selada, ainda que púbere em meio a lobos. Não se vingou. Mas preferiu dissolver-se em neblina para umedecer as pálpebras dos poetas. Eis uma das faces de Mira-Celi: Roselis/ Lys.




O seguinte poema é algo a ser olhado com muito cuidado. Não é apenas uma “chave”: é uma peça rara. É uma obra em si mesmo. Diz Mário Faustino que “tivesse ele sido escrito numa língua mais divulgada já garantiria, por si só, um lugar para Jorge de Lima na poesia universal” (Revendo Jorge de Lima). Se ele reviu, aqui o reinventamos. Vamos a este poema, então:





25



O avô tinha sido uma ancião convencional,
que se enterrou de sobrecasaca e polainas;
e a avó - uma menina pálida que morreu ao pari-la:
o pai fez algumas baladas;
contam que tinha uma luneta para olhar ao longe.
Daí - a mão dobra a página do livro,
e a história da tetraneta finda com uma estocada no ventre:
há destinos travados, lenços quentes de lágrimas,
algum incesto, uma violação sobre um sofá antigo.-
Quando a mão dobra a página, há rastros de sangue no soalho.
Esta é a mais nova das cinco.
Veja que os seios são como neve que nós nunca vimos
e ninguém nunca viu o pai que lhe fez um filho;
e o filho desta menina é este moço de luto.
Agora vire a página e olha o anjo que ele possuiu,
veja esta mantilha sobre este ombro puro,
e estes olhos que parecem contemplar as nuvens
através da luneta avoenga. Veja que sem o fotógrafo querer
as cortinas dão impressão de caras impressionantes
por detrás da gravura: um estudante de cavanhaque e outro de capa.
Repare bem o braço que ninguém sabe de onde
circunda o busto da moça e a quer levar para um lugar esconso.
Fixe bem o olhar com o ouvido à escuta para perceber a respiração grossa,
os gritos, os juramentos... A saia negra parece um sinal de luto,
e o decote é nau que a levou para sempre. E este fundo de água
pode ser o mar muito bem; mas pode ser as lágrimas do fotógrafo.




Aqui temos, de novo, o tema do estupro e de alguém fotografando tudo [olhar de poeta onisciente-e-impotente]. Tema retomado em Invenção de Orfeu no poema VI do Canto II, como expusemos acima. Aqui, o passar do tempo é colocado como o dobrar/virar as páginas de um livro[o Livro do tempo]. Temos a tragédia da boa família pré-figurada ali. A imagética e o ritmo garante a maestria do poema. Mas essa é uma análise de Invenção. Outra de Mira-Celi demandaria um volume acima de nossa proposta. De qualquer maneira, vire a página: olhe o anjo que foi possuído, e olhe a mantilha sobre aquele ombro puro. Essa é uma das faces de Mira-Celi, cercada por cortinas quais caras impressionantes, ali pré-figurada e retomada nos poemas acima descritos. Mira-Celi é leitmotif também em Invenção.




“Fixe bem o olhar com o ouvido à escuta para perceber a respiração grossa,

os gritos, os juramentos... A saia negra parece um sinal de luto,
e o decote é nau que a levou para sempre. E este fundo de água
pode ser o mar muito bem; mas pode ser as lágrimas do fotógrafo”.


[Anunciação e Encontro de Mira-Celi].




“pois meu grito danado é o mesmo grito

encerrado no ventre dos ouvidos
repercutido pelos céus que sofres”.


[Invenção de Orfeu].









Marcelo Novaes

quinta-feira, 13 de agosto de 2009


A Paz Convulsa














No poema IV do Canto Segundo, “Subsolo e Supersolo”, a característica de enumeração e fragmentação do poeta em seu esforço de inteirar-se, integrar-se, reerguer-se a partir da ruína do mundo e das coisas, nesse canto telúrico que se pretende também preter e supranatural, está expresso em todo o colorido ultrabarroco de suas imagens. Se encontrarmos “o poeta inúmero” já estaremos avisados e prevenidos. Parte do volume (quase-excesivo) de “Invenção de Orfeu” se deve a essa multiplicidade: ao mesmo tempo enumeração e fragmentação. Ou luta contra a fragmentação.







IV.



Se me vires inúmero, através
desse poema, entre as coisas e as criaturas,
como se eu próprio fosse o que outrem é,
dissipado nas páginas impuras,



arrebatado pelo próprio poema,
possesso, surpreendido, fragmentado,
travestido de herói ou de réu, em
quase todos versos degredado,



negarás meu irmão, a alma que vive
perdida na ansiedade de si mesma
sonhando a paz, querendo a paz; a paz



mas nas tormentas em que a paz revive
mas nos silêncios em que a paz se lesma
e se intumesce. Eu enlouqueço! Mas



até na álgida paz da insânia, Deus
me busca para ser seu convulsivo
e amado filho em torno de quem crês
morar a paz que ele destina viva
a todo aquele que lhe faz perguntas.
Eis as respostas nessas vozes gêmeas,
deblaterando sobre teu defunto,
sobre teu louco, sobre o teu recente



corpo hoje inda nascido e já julgado
e já descido, e já movido nesses
campos da morte, sob os passos, pássaros,



aos ventos indo, sob as noites gastas,
passos sob as caliças, sob os gessos,
sob as bocas sem choros, em seus nadas.





Se acharmos o poeta entre as coisas e as criaturas, como se outro ele mesmo fosse [como que dissipado nas impuras páginas, como que arrebatado pelo próprio poema, “galopando-o ou galopado”, diria eu], “possesso, surpreendido, fragmentado” [explicita ele], “travestido de herói ou de réu, em quase todos os versos degredado” [arremata Jorge] , perderemos de vista [ou negaremos] a paz que subjaz à ansiedade da alma que, em ansiedade, sonha a Paz e aspira à Paz. Pura e simplesmente. Essa a fórmula de parir por conceber [só o poder conceber-aspirar já é “meio-parir”, quando se leva em conta as melhores equações de um Cristianismo platonizado ou de um Platonismo Cristão]. Se concebemos algo, há de haver um quantum de realidade [“essencialidade, ou possibilidade essencial”] no concebido ou concebível. O heroísmo essencial [e também a condição de réu] consiste, justamente, no esforço-dor de pari-lo em si, por si, na Graça, na consciência do supranatural. Se olhamos para o inumerável [e o “inesgotável plurifragmentado”] do poeta, poderemos perder essa alma essencial, na ansiedade de si mesma, sonhando a paz [e sonhar a paz é tentar imantá-la ao chão, ou ao menos ter a coragem de aguardá-la e pretender abarcá-la]. Paz, sim, “mas nas tormentas em que a paz revive, mas nos silêncios em que a paz se lesma e se intumesce”. Bastaria esse verso para tirar qualquer dúvida [porventura alguém ainda a tivesse...], de ser Jorge um construtor de linguagem. Eis o engendramento visual, imagético, dessa paz em meio à tormenta: uma paz que “se lesma nos silêncios, bem como intumesce”. “Eu enlouqueço!”. Ele enlouquece... Eis o esforço heróico de ser buscador, degredado, réu, de se pulverizar na dor de cada coisa, aspirando parir a paz de Deus a partir de dentro. Mesmo no fulcro da “loucura”. Até na álgida paz da insânia, aquela que subsiste ou subjaz a tudo mais [no sub ou no supersolo...]. “Mas até na álgida paz da insânia, Deus me busca para ser seu convulsivo e amado filho em torno de quem crês morar a paz que ele destina viva...”. Ela se lesma e intumesce, incha, cresce em dor de parto mental, mas existe, “in-xiste”, tem íntima existência no ser que se convulsa. Mas isso a quem faz perguntas. Só a quem faz perguntas. Só a quem , existencialmente [“in-xistencialmente” e insistentemente] se dedica a fazê-las, ou se vê levado a tal. A paz de Deus se destina viva a todo aquele que lhe faz perguntas. E que posição de exceção é essa: de degredo ou degradação, porque se perde primeiro na multidão das coisas. Ou só não se perde por construir tal eixo, tal ponto focal de “entredivisar a paz no dividido inumerável em si experienciado”[experienciado-interiorizado]. Eis o esforço heróico [o agon] de parir funda pergunta [com consequente fragmentação, mais que previsível pelo esforço e isolamento, pelo esforço-em-solidão]. Mas há respostas em vozes gêmeas [e teriam de sê-las plurais pela fragmentação de quem ousou perguntar...] deblaterando sobre o já-morto e já-nascido, sobre o ser antitético-redimido, o ser já-movido nos campos da morte e, no entanto, pássaro, sob passos, sob cal, sob pó de gesso, sob ruínas do esforço de construção de si mesmo. Não resta voz à lágrima em muda boca.



“aos ventos indo, sob as noites gastas,
passos sob as caliças, sob os gessos,
sob as bocas sem choros, em seus nadas”.










Marcelo Novaes