Antes de passarmos ao Canto III – Poemas Relativos (na próxima postagem), falemos desses avatares femininos que servem de foco ao poeta em sua construção-de-sentido. Em sua poiesis e em sua autopoiesis.
No poema XVII do Canto II (Subsolo e Supersolo), temos um interessante poema de um avatar sem nome. Temos uma mulher inominada, em seu estado cru: Mira-Celi sem estrelas. Ou com todas elas. Essa limpidez da musa anônima só faz realçar o que Jorge de Lima possa achar em cada uma de suas faces nomeáveis, seja Lenora, seja Inês de Castro, como veremos a seguir. Seja Eurídice, como veremos no próximo Canto.
Vamos ao Poema:
XVII.
Hoje há uma mulher nesse sol-posto,
ora não, ora meiga, ora alvadia.
Ontem revendo-a, muda-se o meu rosto
assustado em cegueira, que não via.
Certa vez a revi em findo agosto:
não era o mesmo canto que eu ouvia;
o seu pranto expirava em outro gosto,
retinia o seu bronze outra alegria.
Tendo vindo do céu chuvas antigas,
essa ofélia dos ares semeou-se:
houve joio e houve trigo sobre o humo.
E a semente do joio nasceu triga,
e uma parte do trigo transformou-se
em sombra ou coisa menos do que fumo.
Esquiva é a mulher no lusco-fusco. Ela mesma é penumbra e rosto. Ora ela, ora não. Ora meiga, ora pálida. Alva de desilusão. Quem a vê transformar-se, transforma-se. Revendo-a, o poeta assusta-se de cegueira. Há um rosto mitológico que assombra, petrifica e congela aquele que o olha: Medusa. Górgona. Poderia ser Medéia em sua fúria. Mas essa é pálida quando muda. Ou emudecida. O poeta é cego (ou cega-se) por não vê-la em todas as faces. Mas como poderia?! Certa vez ele a reviu, e ouviu outra coisa. Outro canto. Riso e pranto se alternam, em expectativas cruzadas daquele que ouve, procura. Altera-lhe o paladar. Nada é o previsto no passar do tempo. Os meses são findos. Essa Musa a si se fertiliza: o tempo e as intempéries a refazem. Ofélia semeada de ares e chuvas antigas. Qual Ofélia de Hamlet, estimada ou enjeitada. As chuvas não têm idade. Na intemporal Ilha, Todos os Tempos se fertilizam. Ilha-de-Todos-os-Tempos. A Eternidade fertiliza todos os Arquétipos, realça todas as faces da Musa [Todas e Uma Só]. Há húmus sobre a terra. Mas inverte-se o joio e o trigo. Magnífica forma poética de Jorge trabalhar com antíteses.
Vamos dar nome agora à Musa. Seu nome será Inês de Castro, como em Camões. O poema à Inês de Castro é o penúltimo desse Segundo Canto, o Poema XIX. Todo um Canto será dedicado a ela, quase ao término de Invenção: não por acaso, o Penúltimo Canto: Permanência de Inês. Mas vamos visitá-la, permanecida, neste longo poema.
XIX.
Estavas linda Inês posta em repouso
mas aparentemente bela Inês;
pois de teus olhos lindos já não ouso
fitar o torvelinho que não vês,
o suceder dos rostos cobiçoso
passando sem descanso sob a tez;
que eram tudo memórias fugidias
máscaras sotopostas que não vias.
Tu, só tu, puro amor e glória crua,
não sabes o que à face traduzias.
Estavas, linda Inês, aos olhos nua,
transparente no leito em que jazias.
Que a mente costumeira não conclua,
nem conclua da sombra que fazias,
pois, Inês em repouso é movimento,
nada em Inês é inanimado e lento.
As fontes dulçurosas desta ilha
promanam da rainha viva-morta;
o punhal que a feriu é doce tília
de que fez a atra brisa santa porta,
e em cujos ramos suave se enrodilha,
e segredos de amor ao céu transporta.
Não há na vida amor que em vão termine,
nem vão esquecimento que o destine.
Não podendo em sossego Inês estar,
foi preciso mudá-la, nessa lida,
tão inconstante lida – mar e mar.
Descansa a doce Inês na sombra ardida.
Vem alta noite um rei peninsular
amá-la em sua última guarida;
Pois que matar de amor bem que se mata
para se amar depois a morta abstrata.
Semelhante amor qual esse Rei houve
à dona Inês não é achado. Em vão!
É preciso louvá-lo, e que se louve
o amor que além da morte é duração.
Ó dorida paixão, acalma-te e ouve:
foi buscá-la alta noite em seu caixão.
Roubou-a à negra paz minha viuvez.
Pajens, vive de novo a sempre Inês.
E para que não finde a eterna lida
e tudo para sempre se renove
nessa constante musa foragida;
entre Andrômedas e Órions alas move.
A sua trajetória é tão renhida,
Que a multidão celícola comove.
Vai ser constelação de um mundo novo,
esperança maior de eterno povo.
Ó paz, ó fim, ó mundo inominado
descansa doce névoa mensageira.
Teu rosto primogênito gelado,
que pólen misterioso te empoeira?
Calendário de lumes começado,
dormida potestade, luz primeira,
eras ontem rainha, hoje és ritual.
Que destino de gente supra-real!
Estavas, linda Inês, posta em sossego
para sempre no mundo sideral;
baila tudo em redor ao teu ofego,
tudo no atlas celeste era teu graal!
Tudo deixaste, ó amor, ó engano cego,
que viver neste mundo acidental
e morrer neste amor inda é certeza
de jamais perecer musa ou princesa.
Estavas, linda Inês, repercutida
nesse mar, nessa estátua, nesse poema,
e tão justa e tão plena e coincidida,
que eras a alma da vida curta; e extrema
quando se esvai na terra a curta vida.
Tu te refluis na vaga desse tema,
eterna vaga, vaga em movimento,
agitada e tranqüila como o vento.
Inês da terá. Inês dos céus. Inês.
Pronunciada dos anjos. Lume e rota.
Apenas obtenção, logo viuvez.
Depois noviciaria. Antes remota.
Agora sombra. Iluminada tez.
Ontem forma palpável. Hoje ignota.
Mas sempre linda Inês, paz, desapego,
porta da vida para os sem-sossego.
Estavas linda Inês posta em sossego. Como no Canto III dos Lusíadas. Vamos explorar a riqueza de nuances, matizes e antíteses que a visão dessa Inês propicia a esse poeta. O Poeta a vê morta. Rainha depois de morta . Trata-se do malfadado romance do infante Pedro, futuro rei de Portugal com a ama/ aia de sua esposa, Constança; Inês é assassinada em 1355, a mando do rei de Portugal, Dom Afonso IV, que queria para seu filho casamento mais conveniente. Diz a lenda que o príncipe vestiu a noiva em trajes nupciais, colocou-a no trono, e fez a corte beijar-lhe a mão. Dado o contexto histórico-lendário, vamos à imagem: o poeta não ousa olhar o torvelinho nos olhos cegos de Inês. O suceder cobiçoso dos rostos que lhe atravessa a tez, como que querendo lê-la/ decifrá-la sob a pele. Atrás da pele. O poeta tem pudor e comedimento, como se deve ter prudência ao olhar para a face da morte. E para a cobiça. A cifra mítica citada acima, do olhar que petrifica (=Medusa/ Górgona) é correlato do tema. Mas a morta, aqui, é espelho da sondagem e da cobiça viva. Há um coro de máscaras que desfila sobre Inês (pretensamente, sob a sua tez) e que ela não vê. O poeta não quer se debruçar sobre o que ela mesma não vê. Vê nela o puro amor. Vê que ela não vê o que sua face agora traduz, coberta de cobiça: o cortejo cobiçoso dos rostos. Inês nua aos olhos. Transparente. E como bom trovador, o poeta a vê em movimento inanimado. Nada em Inês é morto.
As fontes da própria Ilha do poeta, a Ilha de Invenção de Orfeu, nascem desse tipo de amor inocente. Nascem da rainha viva-morta. Nunca morreu de todo. “O punhal que a feriu é doce tília/ de que fez a atra brisa santa porta”: a morte de Inês é porta sagrada para outro Tempo e Outro Mundo, é Átrio Místico. É com esses olhos que o poeta-fundador, o demiurgo da Ilha, olha para a sempre-viva Inês. Como Orfeu quer olhar para Eurídice, tendo de atravessar Umbrais. Não podendo ter paz em vida, Inês teve de ser transladada: esse translado é a própria travessia do Átrio. Quem quiser acompanhá-la deve fazer como a amou o rei: amor que vence o Tempo. “Semelhante amor qual esse Rei houve/ à dona Inês não é achado. Em vão!/ É preciso louvá-lo, e que se louve/ o amor que além da morte é duração./ Ó dorida paixão, acalma-te e ouve:/ foi buscá-la alta noite em seu caixão.” E essa Inês que foi ama/aia em vida, agora depois de morta tem pajens para si: “Roubou-a à negra paz minha viuvez./ Pajens, vive de novo a sempre Inês.” Esse é o amor que lhe dedica o rei. Esse é o amor que lhe dedica o poeta. A viuvez também é paz, ainda que negra. Pois quando em vida Inês nunca foi posta em sossego. No final do poema é reiterado ser ela mesma “porta para os sem-sossego”. A morte de Inês, como disse acima, é Átrio. O poeta faz algumas explanações e firulas barrocas, coloca-a como Inês sidérea (Mira o Céu, Mira-Celi!), transformada em constelação, como Cassiopéia, Andrômeda, Órion. Os dois últimos personagens são citados no poema. Ela "move alas" entre as constelações. Sua trajetória "tão renhida” e árdua comove a população celeste. Se aqui atrai cobiça, exceção feita aos olhos que enxergam (rei-poeta), lá atrai comoção. Simpatia. Ternura. Inês é calendário de lumes (Mira o céu: Mira-Celi!). Nenhuma poeira pode empalidecer seu rosto. Seu eterno movimento, flor e fruto do seu desapego, agora é rota. Agora é Norte. Porta para os sem-sossego.
Marcelo Novaes

2 comentários:
Cara, sou seu fã.
Mateus,
Grande alegria pra mim!
Abração!
Marcelo.
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