quinta-feira, 9 de julho de 2009


Órfico Barroco















Falamos do Barroco em nossa última postagem, e deixamos aberta a questão de sua ligação com a Igreja Católica. Prometemos prosseguir nosso estudo acompanhando as observações de Mário Faustino, e é o que faremos agora. Se falamos do Órfico e do Barroco, aprofundaremos um pouco as questões para falarmos do “Órfico Barroco”.



Em “Revendo Jorge de Lima”, diz Mário Faustino:


“Para compreender a Invenção de Orfeu é preciso compreender o barroco. Lembrar, antes de mais, que este é, ainda, o nosso único estilo. Afinal de contas, ainda existe – hoje talvez ainda mais do que ontem – a coisa chamada nação. Há a nacionalidade luso-brasileira [...]. Tal nacionalidade, por estas e por aquelas, foi e tem sido católica tanto quanto se pode ser. O barroco é o catolicismo. O estilo “jesuíta” [...]. O estilo da Contra-Reforma. O estilo combatido nos países protestantes. O que só frutificou em Itália, Espanha, Portugal, Alemanha católica, Império Austro-Húngaro, Polônia.


O estilo “manuelino”. Tudo o que de melhor se fez em Portugal arquitetônico. Tomar: a janela do Convento de Cristo. As “capelas imperfeitas” da Batalha. No Brasil: o Aleijadinho, os azulejos, Minas, Bahia, Recife, Olinda, São Luís, Belém. [...]



Portanto, o barroco parece ter sido e vir sendo e ser um estilo natural nosso. Graças aos deuses, contudo, até entre nós há coisas com que equilibrá-lo. Houve Machado de Assis equilibrando as coelhonetices. Houve Graciliano, equilibrando as regionalices. Há Drummond e há João Cabral para equilibrar o próprio Jorge. Deo gratia.



Algumas noções encontráveis em qualquer dicionário: o barroco substitui a linha pelas massas. Se fôssemos um dos letterati, aproveitaríamos, gostosamente, uma das origens sugeridas para o termo: barrueco, em espanhol, uma grande pérola inchada e disforme. Barroco: o movimento livre em lugar do equilíbrio fixo. A policromia em lugar da cor uniforme. Um dinamismo que pode ir até o paroxismo. Um estilo cuja estrutura é sempre a de outros estilos, um estilo que está apenas na camada exterior, da decoração. Barroco: o amor pelas curvas. Barroco ad absurdum: o rococó. Resumo do barroco: o pitoresco, o inesperado, o selvagem, o primitivo, o bizarro, o fantástico, o acidental, o realismo, a ilogicidade, o informal, o caos, a desproporção, a ordem da desordem, um certo automatismo, o terror, o grotesco, o obscuro, a distorção...



Ora, como se vê, essas palavras descrevem tão bem o barroco quanto a própria Invenção de Orfeu. Mais ainda que os Lusíadas (que ainda tinham uma estrutura “neoclássica”, emprestada), esse é o poema barroco por excelência. Não há nada mais barroco em nenhuma das artes, em lugar nem em tempo algum.



Mas não vamos dormir com isso. A “Invenção” não é só barroca. É muita coisa mais. É a primeira tentativa que se faz na poesia brasileira de escrever seriamente em grande escala (esquecei-vos dos uraguais dos caramurus). A prosa já o tinha tentado e continua tentando. A prosa, entre nós, sempre foi (ainda será?) coisa mais séria do que a poesia. Houve “Os Sertões”. Há o “Grande Sertão: veredas”. A vasta poesia começa com ‘Invenção de Orfeu’”.


Definimos o Barroco em nosso próprios termos, na postagem anterior. Mário Faustino lista uma série de adjetivos, mostrando a tensão que há entre eles: antíteses e paradoxos (“bizarro” & “realismo”, “caos” & “ordem na desordem”...). Acaba por definir Invenção como o paroxismo do Barroco, “o que há de mais Barroco”. E exemplifica o quão ligado à origem católica é este barroco, considerando-o indissociável daquela matriz. E diz ser o barroco “o nosso estilo nacional”, ainda que dê graças a Deus por vê-lo equilibrado com o não-barroco (ou até pelo anti-barroco). Por sua análise já nos preparamos para o “inesperado”, o “selvagem”, o “primitivo”, o “grotesco”, o “absurdo”, o “distorcido”, etc, etc. na obra de Jorge de Lima. Postula-a como obra inaugural dentro de nossa “vasta poesia” (“a vasta poesia começa com a Invenção de Orfeu”).



Mário Faustino considera fútil ou artificiosa qualquer procura de unidade em Invenção de Orfeu, considera-a suficientemente irregular (“caótica”, para usarmos um dos adjetivos listados acima) para não justificar esse (pseudo-)empreendimento. Teremos de entender o que é uma “unidade”, para avançarmos nessa questão. Uma espiral é uma unidade? O ir-e-vir, espiraladamente, recomeçando sempre e sempre, constitui “uma unidade”? A recorrência de símbolos num conjunto de sonhos “aponta para” (ou “sugere”) qualquer unidade?! Vamos deixar essa questão em aberto: é tão somente “uma” questão. Acompanhemos um pouco Mário Faustino, uma vez que ele tem coisas interessantes a dizer sobre o “processo de feitura/composição” dessa Invenção toda...



“Em primeiro lugar, não acreditamos na unidade que laboriosamente alguns procuram atribuir à Invenção. Não há nesse livro nem a pseudo-unidade (panacéia que recorre a simetrias falazes, à monotonia da versificação, da organização em cantos, do eterno retorno, etc) dos grandes poemas desde a Ilíada [...] Na Invenção existe apenas a ordem na desordem; a unidade interior; o entrejogo de temas que se aproximam por semelhança ou dessemelhança.


Dentre muitas, interessam-nos aqui duas motivações básicas da arte: a necessidade de criar e a necessidade de organizar. As duas agem sempre um tanto em conjunto, uma sempre, contudo, domina. Em Jorge há o primado quase absoluto da criação sobre a organização. Pouco lhe interessa a estrutura de seu poema, no todo ou e partes. O que faz a Invenção – o nome foi muito bem escolhido por Murilo Mendes – é a urgência de criar um mundo, uma “ilha”. A necessidade órfica por definição. Dédalo. A Invenção é uma “natura naturans”. Um mundo verbal. Um mundo de antes mesmo a criação da palavra. Jorge, por seus processos de encantação, de nomeação original, de repetição mágica das palavras, de designação (notar os seus freqüentes “estes”, “esses”, “aqueles”), cria a palavra; percebe o mundo pelas palavras que cria e, assim, cria um outro mundo, uma outra natureza de palavras-objetos, de frases-objetos, de estrofes-objetos, de poemas-objetos: a “Invenção de Orfeu”-objeto, o objeto “Invenção de Orfeu”. Como diria Sartre, Jorge, aí, nem fala nem cala. Faz outra coisa: coloca, dizemos nós, as palavras em ação, por elas mesmas, rumo a criação de um mundo. Através de todas as suas inter-relações possíveis e imagináveis, as palavras-coisas de Jorge, em toda a sua caótica, urwéltica desordem, vão se combinando para formar seu próprio universo. Os objetos por ele nomeados não são os mesmos do mundo que conhecemos através de palavras prosaicamente semelhantes às suas, poéticas. Esses objetos são apenas pontos de referência – termos de comparação e de diferenciação. A palavra, no Jorge da Invenção (pelo menos), não é simples signo, rótulo, utensílio de comunicação. É um ser vivo, molécula orgânica que, associada a outras, compõe um cosmos. Por isso mesmo é a Invenção de Orfeu intraduzível, num sentido muito mais absoluto do que a prosa, ou o mero verso, ou qualquer outra poesia menos originária.

Invenção de Orfeu: a fenomenologia a caminho da antologia”.


Observação minha: Creio haver um erro aqui, provavelmente de digitação/impressão: a caminho da “ontologia”, do ser, e não da “compilação histórica de elementos” (antologia), pela linha de raciocínio aventada por Mário. De qualquer maneira, rumo a ambas, antologia e ontologia, uma vez que a anotação do próprio Jorge de Lima ao título de seu livro – após a sugestão de nome dada por Murilo Mendes - foi a seguinte: “Invenção de Orfeu ou Biografia Épica, Biografia Total e não uma simples descrição de viagem ou de aventuras. Biografia com sondagens; relativo, absoluto e uno. Mesmo o maior canto é denominado –Biografia”. Nada poderia ser mais barroco. Lembra títulos de tratados escolásticos, ou mesmo a justificativa de uma narrativa épica ou de “sondagens” para El Rei, nas nações colonialistas. Inventário de descobertas & descoberta do Ser, na minha leitura. Ontologia e antologia, com preponderância do primeiro termo. “Biografia com sondagens; relativo absoluto e uno”. Esse título mostra o escopo pretendido pelo poeta: fazer a Biografia coincidir com a auto-perscrutação do que - ainda - lhe seria desconhecido (seus sonhos, seus transes, suas motivações, seu inconsciente, seu próprio processo criativo desdobrando-se e revelando um pouco mais de si para si mesmo), com a História (um painel histórico -além de mítico-literário - que lhe apresentasse “suficiente” para tal fim: suficiente para uma Biografia Total...) e Teologia; isso é Biografia Total ou Épica. Isso é o “Épico Interiorizado”, como dissemos em nossa própria definição de Órfico... “Mesmo o maior canto é denominado –Biografia”, arremata Jorge, mostrando que não se pode escapar a avaliação/apresentação da Própria Vida, inserida no painel histórico-social (o tempo laico, do mundo, dos séculos –tempo secular) e no Plano Divino (o “tempo de Deus” ou “tempo-sem-tempo”/ “tempo-aquém-além-tempo”: Eternidade; já falamos da “ilha aquém e aquém geografias”, comentando os primeiros poemas do Canto I da Invenção).


Prossigamos com Mário:



“Invenção de Orfeu: a fenomenologia a caminho da antologia [/ontologia]. A percepção criadora das coisas presentes. A percepção criadora das coisas passadas: à la recherche du temps perdu, stream-of-consciousness. A percepção criadora do futuro: magia e profecia. Invenção de Orfeu, o tempo e o espaço numa nova medida: a ilha intemporal e extra-espacial, a ilha dentro do seu tempo e dentro de seu próprio espaço, a ilha em si e a não-ilha.



Em tempo: a Invenção de Orfeu como poema épico. Por que cargas d’água? Por que razão mal-usar termos? Não nos basta possuirmos um grande poema órfico? Preferimos aproximar a “Invenção” das “Metamorfoses” de Ovídio a aproximá-la, por exemplo, da “Odisséia”. Um poema épico é por definição objetivo. Há o épico dramático. Épico-lírico, subjetivo, só mesmo o falso-épico. Reside aí a principal objeção a fazer à “Eneida”. Enéias identifica-se demasiado a Virgílio. A “Invenção” é subjetiva demais. Dirige-se tanto ao passado do próprio Jorge quanto ao presente e ao futuro, quanto à criação da ilha.



O herói da invenção é Orfeu, é o Poeta, é Jorge. Onde está, nisso o épico? Quando se diz épica a “Invenção”, está-se confundindo quantidade com qualidade. Mas os poemas órficos, não-épicos, são igualmente vastos, em qualquer sentido. Eis, assim, nossa posição: a Invenção de Orfeu tem a medida do “epos”, mas não é épica: é órfica”.



Mário se refere ao aspecto “engendrador de mundo” [não necessariamente organizado] de “Invenção”, o aspecto de “criação de mundo primordial” [Urwelt, “proto-mundo”]. Isso também é órfico, o aspecto de “cosmogonia originária”. Não há a menor dúvida de que Jorge “mais criou do que organizou”. Já vimos (e retomaremos o tema em maior profundidade) que o processo de criação de “Invenção de Orfeu” sofreu a influência do “transe”. Disse que todo processo criativo (mormente os “de fôlego”) precisam/ se abastecem de produtos de livre associação, além de oniróides. No caso de Jorge há informações seguras, dadas por seu cunhado Povina Cavalcanti e do médico e amigo J. Fernandes Carneiro, de seu período de internação (dez dias) no segundo semestre de 1948, onde, sob efeito de sedativos para aliviar-lhe a angústia, Jorge escreveu a maior parte do material que seria reelaborado em seu Livro de Sonetos, publicado no ano seguinte. Não se sabe quanto de reelaboaão esteve envolvida no processo (talvez menos do que suponha o leitor mais burocrático...), mas, de qualquer modo, essa escrita profusa esteve marcada pelo signo da angústia (e da procura por alívio) e por um estado “febril”-oniróide, que é apropriadamente chamado de “hipnagógico” (entre o sono e a vigília) pelo próprio médico supracitado. Este fato, e a retomada de temas e sonetos em Invenção de Orfeu dão conta de parte da origem desse material. No próprio corpo de “Invenção” já encontramos menção ao “Engenheiro Noturno” (“o fabricante de sonhos em nós”) no início do poema XXIV do Canto I:



Abrigado por trás de armaduras e esgares,
o engenheiro noturno afinal aportou
ao nordeste dessa ilha e construiu-lhe as naves.
Penoso empreendimento o invento desse cais
e deste labirinto e desses arraiais.
Para britar a pedra escreveram-se hinos
Prontos para marchar ou morrer sem perdão.
Numeraram-se os chãos cada qual com seus ossos,
reacendeu-se a colméia, atiçou-se o pavio.
Lemos contos de Grimm, colamos mariposas
nesse jato de luz em rente às velhas tias;
e sob esse luar conversamos baixinho
com esse pranto casual que os velhos textos têm.


O pródigo engenheiro acendeu seu cachimbo
e falou-nos depois de flores canibais
que sorvem qualquer ser com seus polens de urânio.


‘Feliz de quem ainda em cera se confina’...
disse-nos afinal o engenheiro noturno.


Em seguida sorriu. Era perito e bom.
Vimo-lo sempre em sonho a perfurar os túneis
Forrados a papel de cópias e memórias”.


[...]


Esse é um excerto do poema XXIV. Dada a extensão a obra, cada vez mais seremos obrigados a apontar para trechos da mesma. São cerca de 11000 versos. O engenheiro noturno aportou a nordeste da ilha. Acende-se a luz noturna: seu ambiente é o dos pavios e cera das velas sob luares, das conversas das tias antigas, dos vetustos (e infantis) contos de Grimm. O seu ambiente é o das mariposas que cercam a luz noturna (“coladas” umas às outras, como são “numerados” os chãos de pedra – enumerações e amálgamas; listagens, “inventário memorial” e “condensações oníricas”). Melhor quem se confina a esse mundo “pacato” de procura noturno-perscrutadora), ainda que seja labiríntico tal empreendimento [o da auto-procura e constituição de uma “ilha”], melhor fiar-se na cera da vela do que nas bombas atômicas, “essas flores canibais que sorvem qualquer ser com seus pólens de urânio” (verdadeiros buracos negros anti-floração). O engenheiro acende seu cachimbo em meio a essa paisagem (parece-me um ancião pacato, com olhos acostumados ao escuro –seja jovem ou velho na aparência). “Era perito e bom./ Vimo-lo sempre em sonho a perfurar os túneis/ forados a papel de cópias e memórias.” O engenheiro é conhecido (ou entre-visto) no mundo noturno, em sonho, cavando os túneis forrados com cópias e memórias. Há todo um trabalho de fotomontagem e colagem feito pelo engenheiro, como Jorge também fazia, diletantemente, em seu período de vigília, e sabi que os sonhos também operam assim: com “cópias e memórias”, “cavando túneis (algo sólido, que atravessa a terra e garante sustentação subterrânea) forrados a papel” (algo frágil, onde se imprime uma imagem que pode ser amassada, rasgada ou avariada com o tempo ou manuseio). Eis a ode de Jorge de lima ao sonho e a seu construtor, o “engenheiro noturno”.



Neste curto trecho, vemos os pronomes demonstrativos de que fala Mário Faustino, os tais “estes”, “estas”, “desta”, etc., apresentando o objeto-criado/proposto aos “olhos internos” do leitor. Afinal, o leitor també conhece o modo onírico de enxergar, conhece também o engenheiro noturno: “Vimo-lo sempre em sonho...” O leitor também o viu.



Quanto à “Busca do Tempo Perdido”, na referência acima feita a Proust, por Mário Faustino, sabemos que Jorge de Lima o citava como uma referência, além de ter escrito um ensaio sobre o mesmo. Essa “rememoração” em Jorge é feita a serviço do processo órfico de parir-se (enquanto parteja sua obra-ilha, feita de painéis rememorativos e auto-descobertas). O fluxo de consciência (stream- of-consciouness) é o processo de imagem-puxa-imagem, palavra-puxa-palavra, lembrança-puxa-lembrança a que aludimos quando dissemos do “quantum” de associação livre (fluxo de consciência, auto-observação do “processo primário”, na linguagem freudiana) deve estar presente, necessariamente, num trabalho desse alcance. Jorge o pariu sem nem o cuidado de organizá-lo assim tão bem (“elaboração secundária”). Talvez nem fosse o caso de fazê-lo. Fica o documento literário auto-exploratório em toda a sua monumentalidade, naquilo de gigante e de grotesco que isso possa carregar. Ambas as faces.










Marcelo Novaes

2 comentários:

Lia Noronha &Silvio Spersivo disse...

Marcelo: que maravilhoso espaço para adentrar os mistérios da Literatura...amei!!!
Vou te linkar no meu Cotidiano,ok?
Abraços mil!!!

Marcelo Novaes disse...

Lia e Silvio,



Claro que podem linkar. É um prazer!



Obrigado!







Abraços,






Marcelo.

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